Edifício Rosa










            Era uma noite chuvosa. A enxurrada quase subia pela calçada. Para chegar em casa cedo, Ana pegou um táxi, mas o trânsito estava um caos por toda a cidade.

Por isso, ela preferiu descer uma esquina antes de chegar ao seu apartamento. Foi até melhor assim, um banho de chuva sempre faz bem à alma e, naquele dia fatídico, foi uma dádiva dos deuses. Ela teve um dia longo e exaustivo.

Descobriu que a promoção no trabalho que tanto almejava foi dada a outra pessoa, com menos experiência, só porque o cara era puxa-saco do chefe. E seu namorado, com quem sonhava em se casar, estava a traindo com sua melhor amiga.

Aquele dia não podia ficar pior. Ainda bem que estava acabando, algumas lágrimas se misturavam com as gotas grossas de chuva.

Finalmente o prédio, depois de quase quinze minutos de caminhada...

O Edifício Rosa era um prédio antigo, de doze andares e dividido em dois blocos. Ana passa pela portaria.
     — Boa noite, Sr. Antônio! Tem correspondência para mim? — Ana tenta esboçar um sorriso.
    — Tem sim, senhora Ana! Que chuva, hein!
     — Nem me fale. Tive que vir a pé da esquina até aqui, pois o trânsito está caótico.
    — Está tudo bem com a senhora? Está com uma cara de quem está bem triste.
     — Não é nada, Sr. Antônio, é só o cansaço. Nada que um banho quente e uma taça de vinho não resolvam.

O porteiro ficou observando a jovem se encaminhar para o elevador, seus pés pareciam que carregavam chumbo, de tão pesado que eram os seus passos. Ele lhe deu o último aceno quando entrou no elevador e a porta se fechava.

    “Pobre menina”, pensou Antônio, antes de voltar para suas palavras cruzadas.

Finalmente dentro do elevador, a jovem tristonha aperta o botão correspondente do seu andar, décimo andar, bloco I. A porta se fecha, porém, quatro andares acima, escuta-se outro trovão, a energia é cortada. Ela tenta respirar fundo para manter o resto de calma que ainda lhe restava.

     — Socorro, alguém me ajude. — Entretanto, pelas portas de aço ninguém a escuta. Em uma tentativa inútil, ela soca a porta e percebe o telefone de emergência, que não funciona.

Sentando-se no chão e com as roupas molhadas, Ana se entrega, seu corpo tremia, as lágrimas caíam sem controle algum sobre a maquiagem já borrada de chuva, um grito que doía em seu peito por semanas é liberado com uma intensidade que até a queda de energia se estabelece para que a jovem finalmente conseguisse entrar em seu apartamento.

     “Que bom! O elevador começou a subir, vou finalmente chegar ao meu apartamento e bem a tempo.”

Se não fosse por tudo que passou, ela poderia até dizer que estava feliz.
Apartamento 1001, bloco I.

Ana respira fundo antes de colocar a chave na fechadura, não queria correr o risco de quebrar a chave.

Agora é só tirar aquela roupa molhada e tomar um banho quente.

“Que delícia! Eu realmente precisava de um banho!”

Depois do banho merecido, Ana coloca a sua melhor camisola vermelha com detalhes de renda, deixando à vontade os seus seios, não eram muito grandes, mas ela se orgulhava deles, preferiu deixar a calcinha de lado, afinal passou o dia todo com aquela peça lhe apertando e incomodando, estava em sua casa, no seu porto seguro, podia ficar como gostava.

Depois desse pequeno ritual, abriu uma garrafa de vinho e se sentou em sua poltrona favorita em frente à janela, onde podia ver a chuva caindo e a agitação da cidade grande. Tomando um gole do vinho, ela sente o sabor da bebida invadir o seu ser, era relaxante, como se todos os seus problemas tivessem desaparecido.

    “Mesmo com um dia horrível, deu tempo...”

Com um sobressalto, ela é trazida para a realidade com o barulho do interfone. Do outro lado da linha, Sr. Antônio informa que ela tem visita. Com um misto de alívio e ansiedade, ela permite a entrada do estranho.
Ela apenas destranca a porta, para que não haja mais barulho do que o necessário. O Prédio Rosa tinha paredes finas e era possível ouvir a campainha tocando, e vizinhos sempre gostavam de saber quem entrava e saía dos apartamentos.
Não durou mais que cinco minutos, quando Ana se deu conta de que uma figura entrava em seu lar, seu perfume se exalou rápido pela pequena sala, era quase tão embriagante quanto o vinho que ela tomava.

Seu terno sob medida exalava elegância, o que combinava bem com seu lenço vermelho preso no bolso e um chapéu, que mais lembrava a elegância da década de 20, do jeito que ela gostava. Aquela presença fez o corpo da jovem se arrepiar e seu corpo sentir um desejo que há muito não sentia.


Era estranho como a chuva caía forte e ele não tinha uma gota sequer sobre si, com maestria e sem deixar a magia, ele tranca a porta atrás de si, se encaminha devagar e a beija, seus lábios quentes e seu toque macio fizeram ainda mais o corpo de Ana se arrepiar, teve que usar de toda sua concentração para não deixar o seu corpo tremer diante daquele toque.

E ali se dá início a um ritual.

Angel coloca para tocar as músicas favoritas de Ana. Ele sabia cada detalhe. A serve com um pouco mais de vinho. Enquanto ela se deslizava pela sala, dançando suas músicas favoritas, ele preparava uma deliciosa refeição, Ana nem se deu conta de que os ingredientes que ele usava não faziam parte de sua lista de compras habitual, mas cada um deles estava guardado organizadamente em seus armários e, como se ele sempre morasse ali, Angel pega cada um deles.



Não precisou de muitas palavras. O olhar do convidado sobre o seu corpo se movimentando em liberdade era a conversa suficiente que Ana precisava.

Mesa posta. Jantar servido. Foi a melhor refeição que Ana experimentou em anos.

    — Você sempre cozinha assim para as mulheres? Queria saber mais sobre você?
     — Não estou aqui por mim. E essa noite não é sobre mim! Você é a estrela. Tudo que quero é que aproveite tudo que posso te oferecer.

Aqueles olhos fizeram com que Ana visse a própria alma ferida, uma lágrima solitária caía devagar pelo seu rosto. E com beijos ele a secou, deixando apenas que partes importantes do corpo de Ana ficassem molhadas.

Não conseguindo mais conter os próprios impulsos, ela se deixou conduzir para o quarto. Seu corpo clamava por aquele toque, era visível ver seu desejo através do tecido da camisola vermelha. Ana se entregou sem medo, gemidos presos em sua garganta eram liberados sem nenhum pudor.

Ela foi amada
Desejada
Levada ao êxtase, tantas vezes que não soube contar.

Seu corpo caiu sobre a cama, leve e satisfeito...

    — Obrigada! — ela agradece entre sua respiração ofegante.
     — Não precisa agradecer, esse é o meu trabalho.
         — Como será feito?
     — Já foi feito, minha querida, não se preocupe!
     — Vai doer?
    — Jamais permitiria que você sentisse qualquer coisa além do prazer proporcionado. Agora descanse. Acredito que não demoraram muito para encontrá-la.
    — Tudo bem! Mais uma vez, obrigada por tudo. Pela primeira vez me senti viva.



Angel apenas observa, enquanto seu corpo se entrega à eternidade. Como um gesto que já era sua marca, ele deixa uma rosa vermelha sobre o ventre inerte de Ana.

Ele se veste e sai calmamente, com um pensamento:
     "Como uma jovem tão ávida pela vida se entrega à morte..."


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