Desafiando o Sistema
Finalmente a morte veio. Abraçou-me em seu manto; era quente e confortável. Como esperei por esse dia! Sua face era calma e serena, nada daquilo que me contavam; aceitei de bom grado ser envolvida em seus braços.
Primeiro, era tudo escuro e frio, mas logo depois me vi em um campo verde, com várias árvores e pequenos animais correndo. O sol era agradável, sentia-me aquecida; a brisa tocava a minha pele com um carinho que jamais senti...
“E a paz? Ah, a paz! Como ansiava por ela!”
Enquanto caminhávamos, a senhora Morte me contava das coisas da vida. Eu apenas ouvia sua doce voz. Nada mais de perguntas ou dúvidas: estava exatamente onde queria estar!
Não sei por quanto tempo andamos ou conversamos; pareceram-me horas. Até que chegamos a um riacho. A água era cristalina e agradável de ver; seu som trazia-me muita calma. Sobre o pequeno rio havia uma ponte de madeira. A senhora Morte explicou-me que, se eu a atravessasse, teria a paz que sempre busquei, não teria mais problemas ou preocupações. Mas eu também tinha a escolha de voltar por onde tinha vindo e continuar a minha jornada. Dei um sorriso e disse à Morte que a decisão era fácil. É claro que a acompanharia; não tinha mais nada que me prendesse ao meu lugar de origem. Dei-lhe as mãos e a segui...
Mas, quando coloquei o pé no primeiro degrau da ponte, de súbito fui puxada para trás. Não queria voltar! Mas voltei...
Acordei em uma sala branca, com várias pessoas de branco e tubos enfiados em mim. Uma agulha fina no meu braço, vozes gritando que não precisavam mais do desfibrilador, que eu já tinha voltado!
“Saco! Estou viva... agora me lembro!”
Médicos examinavam-me, perguntando meu nome e idade. Quando olhei para o lado, lá estava ela, chorando compulsivamente, dizendo que não queria perder a sua "filhinha querida".
“Quanta bobagem!” Quem vê, até acredita que aquelas lágrimas ou palavras eram reais.
Agora eu estava ali, esticada em uma cama de hospital, com os braços presos para que não tentasse mais contra a minha vida. Disseram que eu precisaria de ajuda psiquiátrica, mas que o pior já tinha passado e que logo poderia voltar para casa.
“Casa? Que casa? Casa é o nosso lar, onde amamos e somos amados.”
Mas isso não acontecia comigo. Logo eu estaria no inferno de novo, sozinha, mais uma órfã do sistema. Fui levada para uma enfermaria, onde disseram que eu ficaria alguns dias. Precisava recuperar as forças; logo a psicóloga viria conversar comigo.
E lá estava ela, de novo, fazendo-se de vítima para todos: — Essa minha filha só me traz problemas... — Ela é meio perturbada, sabe? — Não sei mais o que faço por ela...
“Escória humana. Sinto vergonha de dizer que algum dia saí de suas entranhas; maldito seja esse dia.”
A psicóloga veio e pediu para conversar a sós comigo. Meio a contragosto, aquela que se diz minha mãe saiu da enfermaria. Então, afoita e cheia de esperança, contei toda a história para a médica. Mas, logo que terminei, minha esperança se foi. Sua expressão era de extrema tristeza; disse que nada poderia fazer para me tirar daquela situação. Afirmou que vivíamos em uma sociedade patriarcal e que dificilmente alguém acreditaria em mim.
Era como se o teto tivesse caído na minha cabeça. Fiquei paralisada. Senti as lágrimas quentes escorrerem pelo meu rosto. Ela as enxugou e me deu alguns comprimidos; disse que alguns eram para ser tomados todos os dias, outros quando fossem necessários. Pediu também alguns exames e desejou-me boa sorte.
Eu disse que não precisava de sorte, e sim de ajuda. Mas, mais uma vez, ela me foi negada. Mais uma vez, abandonada...
Três dias depois, voltei para o que chamavam de minha casa. Voltei àquela rotina: casa-escola, escola-casa. Coloquei o uniforme e fui encarar a outra parte da minha "linda" vida de terror: a escola. Quando ia saindo de casa, ouvi aquela voz que me dava nojo:
— Da escola, direto para casa! Não quero você andando com aqueles marginais! — dizia meu padrasto.
Nem me dei ao trabalho de responder; se abrisse a boca, era provável que vomitasse. No caminho, encontrei meu melhor e único amigo, o Lipe. Ele era um moleque negro, magricelo, cheio de gírias. O Lipe é um cara legal, não me julgava. Disse que ficou triste com a minha despedida, mas contente ao saber da minha volta. Disse também que eu não posso me entregar, que preciso lutar contra o sistema, senão nunca sairíamos do patriarcado. Apenas sorri e lembrei-me das palavras da senhora Morte. Com suas palavras doces, eu tinha uma escolha: mudar o sistema, servir de exemplo. Saudades da Morte...
Os dias e as semanas se passaram. O monstro não veio me atormentar em meu quarto. Era assim que eu o chamava; minha mãe o chamava de marido. Meu pai mesmo morreu de desgosto quando eu ainda era pequena; era o único que me amava de verdade. Sinto sua falta...
Dormi aquela noite pensando nele, em quando brincávamos no parque. Colocava-me em seus ombros e saía correndo comigo. Eu ria alto. Que felicidade! Uma coisa me chamou a atenção no sonho: quando acordei, lembrei que ele me disse que eu precisava me proteger, que precisava aprender a cuidar de mim... Aquelas palavras não saíam da minha cabeça. Será que era para fazer o que eu achava que deveria ser feito?
“Será?”
Quanto mais eu pensava, mais tinha convicção de que era isso mesmo. Então, armei-me de coragem e fui à luta. O monstro não encostaria a mão em mim de novo. Treinei durante alguns dias, ponderei todas as possibilidades e agora estava preparada para enfrentá-lo. Mesmo sabendo o que tinha que fazer, meu coração estava a mil. Mesmo com medo, eu teria coragem. Não vou desistir. Vou enfrentar e destruir o sistema patriarcal.
“Eles não serão mais fortes que eu.”
Não demorou muito e ele entrou em meu quarto. Eu segurava a faca embaixo do travesseiro com tanta força que minha mão estava tendo cãibras. Porém, não vacilei. Ele se aproximou da cama; dava para perceber o volume horrendo em suas calças. Ele enfiou as mãos debaixo dos cobertores. Preciso que ele chegue mais perto, não posso errar, só terei uma chance.
“Só mais um pouco... mais perto...”
Já sentia seu bafo podre sobre mim.
“É agora!”
Virei-me e encravei a faca bem em seu peito. E de novo, e de novo... O sangue jorrava para todos os lados. Eu estava coberta com aquela gosma vermelha. Seus gritos eram cada vez mais sufocados pelo sangue que escorria por sua boca. Pelos gritos dele, ela veio. Sobre o corpo inerte, ela derramou lágrimas de verdade.
Chamou-me de assassina, amaldiçoou-me mil vezes. E eu ali, ofegante, segurando a arma do crime. Olhei mais uma vez o corpo inerte do meu torturador. Nunca mais encostaria a mão em mim; nunca mais encostaria em ninguém. Estava aliviada por tudo ter acabado.
Desci as escadas e fui para a cozinha. Servi-me de uma cerveja gelada, a preferida dele. Tinha sabor de vitória. Sentei-me e esperei. Não demorou muito para a polícia chegar, junto com a ambulância, os curiosos e a imprensa. O circo estava armado; só faltava o picadeiro. Fui levada para a delegacia. Podia sentir os dedos e os olhares condenando-me antes mesmo de saberem da história, mas não importava. Estava tudo de acordo com o plano...
Na delegacia, o delegado apontava-me o dedo e xingava-me. Acusava-me de assassinato a sangue-frio, de premeditação. Eu não disse uma palavra. Ele me acusou de várias coisas e mandou colocar-me em uma cela qualquer. Mais uma vez, tratada como um animal; nem se deram ao trabalho de me arrumarem roupa limpa.
Passaram-se alguns dias. Levaram-me para uma sala de interrogatório. Perguntaram por que eu matei o meu "próprio pai". Contei que ele não era meu pai, relatei o que ele fazia e por que o matei. Contei com detalhes como preparei tudo e o esfaqueei. O delegado chamou-me de mentirosa; disse que minha mãe já tinha ido à delegacia contar a "verdade": que eu era louca, invejosa e que não podia viver em sociedade.
Mais uma vez ele me xingou e disse que era melhor falar a verdade. Então, contei tudo novamente, sem mudar uma vírgula. O delegado esbravejava, chamando-me de mentirosa! Fui jogada novamente na cela. Agora eu era o monstro, o animal que todos temiam e odiavam. Eu desafiei o patriarcado e sofreria as consequências.
Semanas depois, uma advogada veio me ver. Disse que iria me defender, que conhecia meu caso, mas não tinha muitas esperanças. Já estava em todas as mídias: "A jovem assassina". Todos estavam contra mim. Minha mãe já tinha dado entrevistas para vários jornais; especialistas ofereceram serviços. Era eu contra o sistema.
Ouvi todo aquele relato calada. Por fim, apenas disse que não me importava, que fiz o que tinha que ser feito e estava pronta para arcar com as consequências. A advogada olhou-me incrédula. Não conseguia compreender minha atitude. Completou apenas dizendo que minha melhor saída era alegar insanidade; que eu poderia ir para uma clínica, o que seria melhor que a prisão. Concordei. Estava onde queria estar.
“O Patriarcado seria desafiado.”
Ela saiu dizendo que iria preparar minha defesa. Naquela noite, em minha jaula, rezei. Não para Deus, pois há muito não acreditava mais no "bom velhinho", mas sim para a senhora Morte, pois esta me ouviria.
“Saudades daquele semblante sereno. Ah, senhora Morte, espero que possa me ouvir...”
Chegou o dia do julgamento. Por mais absurdo que pareça, estava calma. Tinha aceitado meu destino. Jornalistas e populares por todo lado. Minha advogada pediu para eu falar com a imprensa: "Precisa de apoio popular", dizia ela.
— Não.
Não estava ali para ganhar simpatia de ninguém. Só queria a oportunidade de contar a minha história para o conselho de sentença. Ela assentiu e entramos no tribunal. Lá estava ela, minha progenitora, toda vestida de preto, a "bela viúva inconsolável". Mais uma vez me chamou de assassina e amaldiçoou meu nascimento. Só pude sentir pena daquela pobre alma...
Começou o julgamento. Acusação atrás de acusação. O juiz era um homem, um poderoso homem do patriarcado; ele não me daria oportunidade de defesa. Meus professores falaram que sempre fui péssima aluna (mesmo minhas notas sendo acima da média). Minhas colegas de classe chamaram-me de estranha — como a menina do filme, mas sem os poderes, é claro. Os médicos que cuidaram de mim disseram que haviam recomendado um psiquiatra.
Seguiram-se horas de julgamento até eu me sentar no banco dos réus. Era minha vez de falar. Finalmente poderia contar minha versão da verdade. E contei. Contei como meu pai adoeceu de tanto desgosto quando descobriu que sua amada o traía. Contei como ela me batia só porque não tinha nada melhor para fazer. Contei que todas as noites o amante dela ia ao meu quarto e me estuprava, repetidas vezes, enquanto tampava minha boca para eu não gritar.
— "Mamãe não pode acordar, minha princesinha", ele dizia. — "Você é uma boa menina", ele sorria. — "Você é a mocinha do papai..." — "Esse será o nosso segredinho", dizia sua voz rouca e perversa em meus ouvidos.
Contei que foi assim durante noites, dias, meses. Angústia e medo. Contei que tomei coragem para contar à minha "querida mãezinha" e, para minha surpresa, ela chamou-me de mentirosa e me esbofeteou. Com um fio de telefone, dilacerou minhas costas. Eu tirei a camisa e mostrei as marcas de seu crime. Foi um alvoroço. Alguns desmaiavam, outros gritavam calúnias; os jornalistas registravam tudo.
O furioso juiz pedia silêncio batendo o martelo. Depois que tudo se acalmou, meus pulsos pararam em um par de algemas. O júri deliberou. O poderoso juiz foi ler a sentença. Antes, porém, não pôde deixar de dar seu sermão: acusou-me de mentirosa e louca; disse que, se estivesse em seu poder, condenar-me-ia à morte por tanta blasfêmia...
Por fim, a sentença: passar o resto da vida em uma clínica para inimputáveis, trancafiada 24 horas, sem direito a visitas, sem direito a nada. O juiz bateu o martelo da "justiça". Pergunto-me: justiça de quem? A Senhora Justiça mostrou-se, mais uma vez, cega.
Fui, mais uma vez, tratada como um animal raivoso em uma jaula. Contudo, estava aliviada. Consegui, mesmo que um pouco, desestruturar o sistema. O patriarcado sentiu a força e a coragem da mudança. A senhora Morte, se me visse agora, teria orgulho de mim!
Eu sorri. Eu gargalhei. A missão que me foi dada foi cumprida. Eu consegui. Ali, sentada na parte de trás daquela ambulância, presa por algemas, eu gargalhei. Já podia imaginar as manchetes: “Extra! Extra! A jovem que desafiou o patriarcado, mesmo com razão, foi trancafiada.”
E ali, sentada e algemada, ouvi a doce voz da senhora Morte: — "Está pronta para ir?" — "Como jamais estive, senhora Morte."
Então, mais uma vez, ela pega em minhas mãos. Estou novamente sobre a ponte, livre de todas as amarras e algemas. Eu estava livre e em paz...
Fim.

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