Pesadelo Macabro
Estava
preparada para dormir. Ao meu lado, minha filha. Eu a cobri e dei um beijo de
boa-noite, como sempre. Contudo, algo parecia estranho. Deitada, olho ao redor
e percebo que estou no meu velho quarto, onde dividia o espaço com meu irmão e
minha irmã. Era minha velha casa... Minha mãe e seu marido... meu pesadelo
diário.
Mesmo
aquilo não fazendo o menor sentido, peguei no sono rápido, um sono pesado e
obscuro. Não sei precisar quanto tempo depois, sinto um peso sobre meu corpo.
Tento puxar ar para os pulmões, mas algo impedia. Abro os olhos e tento ver o
que está acontecendo. Em meio à penumbra, identifico algo sobre mim. Quando
consigo me acostumar com a escuridão, percebo que é meu ex-cunhado. Quando olho
para o lado, constato que ele não está só. Meus ex-cunhados me seguram contra o
colchão, enquanto as mãos deles deslizam pelo meu corpo. Na hora, o gosto azedo
de vômito vem à minha boca. Com esforço, engulo aquela sensação e tento gritar,
mas a voz não vem. As lágrimas molham o meu rosto sem controle.
Com uma
força que nem sei de onde tirei, os empurro para longe. Socos e pontapés em
todas as direções. Com ódio, desfiro palavrões e ofensas.
— Que
diabos pensam que estão fazendo? E o que estão fazendo aqui?
— Nosso
irmão nos mandou. Ele falou que você gosta de ser tratada assim. — disse um
deles.
Mesmo com
pijama comprido, senti os pelos do meu corpo se arrepiarem, como um felino
pronto para o ataque ou se preparando para se defender do predador. Foi nesse
momento que tateei o colchão à procura da minha filha. Meu coração parecia
bater na garganta.
— Cadê
minha filha? — Meu primeiro pensamento foi o meu ex-marido. — O que vocês
fizeram com ela?
— Nós não
fizemos nada com ela. Mas ele fará. — respondeu a dupla de idiotas.
— Ele?
Quem é ele?
Como um
som abafado, eu escuto:
— Mamãe!
De um
salto, me levanto e corro em direção ao que parecia uma eternidade. Chego ao
próximo cômodo e vejo minha filha. Sobre ela, um vulto enorme. Como uma leoa
defendendo o filhote, puxo aquela sombra de cima dela e me coloco entre ela e o
predador.
— Sai de
cima dela!
Quando me
deparo com aquela figura, meu susto não poderia ser maior. Não era o pai dela.
Era o meu. Meu padrasto, falecido há não sei quanto tempo. Minha mente
funcionava como um relógio, as engrenagens rodando com velocidade e precisão.
— A filha
pródiga sempre retorna ao lar.
Aquela voz
fez com que meu estômago desse voltas como em uma montanha-russa.
— Você
está morto. Não passa de um fruto da minha imaginação.
— Sempre
estarei em sua mente, minha querida. Jamais a abandonaria. Que pena que ficou
tão velha.
— Vai pro
inferno, seu velho decrépito! Volte para a tumba, que é o seu lugar. Saia da
frente!
Sua risada
escarninha me fez gelar a alma.
— Você
pode ir. Mas a menina fica. A pele dela é tão macia, como a sua já foi um dia.
— Cale a
boca e saia da frente! Eu nunca vou entregar minha filha a você.
Minha
filha, às minhas costas, tremia e chorava muito. Eu não via, mas sentia o seu
medo. Tinha que tirá-la dali.
Aquele
espírito de súcubo bloqueava a única porta de saída, que dava para a cozinha,
que por sua vez dava para o quintal.
Comecei a
olhar em volta, analisando as minhas possibilidades. Para sair, teria que
derrubá-lo. Mas como? pensei.
Como uma
manifestação da minha mente, sobre a mesa se materializou uma pequena espátula,
não muito grande, mas fina o suficiente para apunhalar alguém.
Sem
pensar, pulei em cima dele. Como já esperava, ele era mais forte do que eu. Mas
não era mais forte que a vontade de uma mãe defender sua cria. Ainda me
pergunto como, mas consegui enfiar a espátula na garganta dele. Um sangue
viscoso e quase preto jorrava da carótida.
Enquanto
ele se contorcia, peguei a minha filha pela mão e saí correndo para a cozinha,
achando que meu desespero tinha acabado. Porém, na porta da cozinha, me deparo
com uma entidade em forma de criança. Ela vestia uma calça branca e um chapéu
Panamá branco, com os dentes serrilhados.
— Vocês
nunca irão sair daqui!
— Eu vou,
sim!
O ódio já
orbitava em meus olhos. O peito pesado, como se me faltasse ar. Mas sairia
dali, mesmo que fosse a última coisa que eu faria. Peguei a faca que estava em
cima da pia e gritei:
— Saia da
minha frente, seu demônio imundo!
— Você é
corajosa, admito. Mas aqui jazerão seus corpos.
Em um
pulo, ele se projeta em cima de mim, e a faca se choca contra o seu peito. Ali,
pensei que era o meu fim...
Com o
coração descompassado e com o suor escorrendo pelas têmporas, eu acordo. Estou
no meu quarto, na minha casa. Olho para o lado e vejo meu atual marido
dormindo. Mesmo com as pernas tremendo, me levanto e vou até o quarto da minha
filha, que dormia como um anjo...
Ainda bem
que tudo não passou de um pesadelo...



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