Bruxa Margareth





                        Margareth corria para salvar a própria vida e a criança que carregava em seu ventre. Pela contagem das luas, o parto não tardaria.

Mesmo com todas as conjurações e feitiços de ocultação, os inquisidores haviam descoberto seu esconderijo no coração da Floresta Negra.

     Ao longe, ela ouvia os latidos ferozes dos cães e os gritos de comando dos soldados.

    Tudo o que teve tempo de fazer foi pegar alguns frascos e seu grimório — o livro sagrado das bruxas.

    Sua mente estava focada apenas em chegar à Cachoeira Sem Nome.

    Para os leigos, era apenas uma queda-d'água escondida entre as árvores. Para aqueles que conheciam os antigos mistérios, era um portal para a Clareira do Grande Sabbath. Lá ela estaria protegida.

    O Grande Equinócio de Outono se aproximava. A Lua de Sangue já brilhava alta, iluminando o caminho daqueles tocados pela magia.

     Em meio à correria, com os cães em seus calcanhares, Margareth encostou-se ao tronco de uma velha árvore quando sentiu uma contração intensa atravessar seu corpo.

     O grito de dor subiu por sua garganta, mas ela o sufocou.

Se gritasse, entregaria sua posição.

   — Ainda não, meu filho. Aguente firme. — disse a jovem mãe, pousando a mão sobre o ventre enquanto respirava profundamente e recitava as antigas preces das anciãs.

    Enquanto tentava controlar as dores, ouviu o trote dos cavalos se aproximando.

   Respirou fundo e pôs-se a correr mais uma vez.

   Seu medo aumentava à medida que os latidos ficavam mais próximos.

  Com as poucas forças que ainda possuía, conjurou uma cortina de fumaça para confundir seus perseguidores. 




   Mas sabia  que aquilo não bastaria.

   Os cães guiavam-se pelo cheiro.

   E o sangue já escorria por entre suas pernas.

   Nem mesmo seu grimório poderia ajudá-la. Para invocar os feitiços mais poderosos, ela precisava estar no auge de suas forças.

  — Estou perdida... — sussurrou. — Por favor, Deusa Mãe, não me abandone. Proteja a mim e à criança que carrego em meu ventre.

   Então, quase como resposta às suas preces, uma voz conhecida ecoou ao longe.

   Em meio às contrações, um fio de esperança nasceu em seu coração.

    — Margareth! Meu amor! Margareth!

    Entre as sombras das copas das árvores surgiu Robson, o homem para quem ela havia entregado seu coração.

   — Graças à Deusa! — exclamou ela. — Meu amor, estou aqui. Por favor, me ajude. Ajude nosso filho. Ele vai nascer!

    Por uma fração de segundo, Margareth esqueceu o perigo, a dor e todo o resto.

   — Que bom que te encontrei antes dos inquisidores.

   — Você não sabe o quanto estou feliz. Nosso filho vai nascer a qualquer momento. As dores estão cada vez mais próximas umas das outras. Você precisa me tirar daqui. A cachoeira é minha melhor chance.

   — É na cachoeira que acontece o grande encontro das bruxas?

     Margareth franziu a testa.

   — Sim... mas como você sabe disso?

   Robson desviou o olhar.

   — Escute. Não temos muito tempo. Se você entregar as outras bruxas e revelar onde elas estão, Deus e seus sacerdotes poderão ter piedade da sua alma. Talvez permitam que você encontre a salvação.

   O mundo pareceu parar.

    Naquele instante, Margareth finalmente enxergou.

    As roupas.

    Os símbolos discretos costurados na capa.

    A postura.

    Os olhares.

    Tudo estava ali.

    Ela foi usada.

    Manipulada.

    Amada apenas o suficiente para ser traída.

   Era apenas uma peça no grande tabuleiro da Inquisição.

   — Você é um deles... — sua voz saiu trêmula. — Você mentiu para mim.

   — Eu menti? Você é uma bruxa. Por que nunca me contou?

   — O que teria feito se eu tivesse contado?

    Robson permaneceu em silêncio.

   E aquele silêncio respondeu tudo.

    — Não vamos discutir isso agora. Entregue-se. Entregue as outras bruxas. É o único jeito de salvar você e a criança.

   — Nosso filho, Robson. Nosso filho!

    Outra contração a fez dobrar os joelhos.

    Lágrimas escorriam por seu rosto.

    — Eu sinto muito..., mas não serei queimada em uma fogueira. E não deixarei que meu filho queime comigo.

    Sua voz ganhou força.

   — Eu te amaldiçoo, Robson Langert. Eu o amaldiçoo!  




    Com um gesto de desespero e fúria, a magia explodiu ao seu redor.

    Robson foi lançado ao ar e arremessado contra o tronco de uma árvore.

    As árvores responderam ao chamado da bruxa.

    Raízes surgiram do solo.

    Galhos se contorceram.

    Troncos curvaram-se para desacelerar os homens que vinham em seu encalço.

    Margareth correu.

    Correu porque sabia que a salvação estava próxima.

    Mesmo com as lágrimas embaçando sua visão e o sangue escorrendo por suas pernas, manchando o vestido e deixando um rastro rubro sobre as folhas secas.

    Então suas forças acabaram.

    Ela caiu.

    Sentiu o bebê se mover em seu ventre, procurando posição para nascer.

    Mesmo diante de todas as intempéries, arrastou-se pelo chão.

    — Não vou desistir... não agora... não tão perto.

   A Cachoeira Sem Nome estava logo adiante.

   Bastava atravessar a estrada.

   Mas os cães já estavam próximos.

   Suas forças a haviam abandonado.

   Toda a magia restante em seu corpo não era suficiente para fazê-la levantar.

   Era apenas uma questão de tempo.

   Então suas preces tornaram-se mais intensas.

   E uma espessa neblina começou a cobrir a floresta.

   Ao longe, ouviu-se o relinchar de cavalos negros.

  Logo depois, o som de rodas cortando a terra.

   Uma carruagem.

   O estalo de um chicote rasgou o silêncio.

   Seu som era tão aterrador que faria qualquer alma implorar perdão por pecados que jamais cometeu.

   Os cães avançaram.

   Suas presas rasgavam a carne de Margareth.

   Já não era possível distinguir o sangue do parto do sangue de suas feridas.

  Tudo se misturava, tingindo de vermelho aquele solo sagrado.

   Então ouviu passos firmes entre as folhas.

   Os cães recuaram.

  Rosnaram.

  Ganiram.

  E fugiram para junto de seus donos. 






  — Não sei quem é você... — disse Margareth entre a dor e o cansaço. — Mas se pretende fazer mal a mim ou ao meu filho, sofrerá as consequências.

   Uma voz grave respondeu:

   — Não se preocupe. Não lhe farei mal.

    Uma pausa.

   — Você está salva.

   Mesmo com a visão turva, Margareth conseguiu enxergar os olhos do estranho.

    Neles refletia o vermelho intenso da Lua de Sangue.

    E naquele instante ela soube.

    Suas preces haviam sido ouvidas.

    Finalmente estava salva.

   Já acomodada no interior da carruagem, cercada pelo calor de mantas e pelo cheiro de ervas medicinais, Margareth deu seu último grito de esforço.

   E ofereceu uma nova vida ao mundo.

   Sem se prender aos constrangimentos de dar à luz diante de estranhos, voltou seu olhar para o homem que a havia salvado.

   — Você ainda não me disse seu nome.

   O homem sorriu.

   Um sorriso antigo.

   Sombrio.

    E estranhamente elegante.

  — Meu nome é Drakun.

    Seus olhos vermelhos brilharam na penumbra.

   — Aurelius Drakun.

 





Comentários

  1. Muito bom, me senti na floresta correndo com Margareth, intenso .

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada pelo carinho! Gosto quando o leitor tem essa sensação de estar dentro da cena! Volte sempre que quiser!!

      Excluir

Postar um comentário